É possível perder a salvação?

É tão triste ver crentes que lutam em aceitar o fato de que a salvação nunca dependeu e nunca dependerá de nós, homens, pecadores, miseráveis e incapazes de nos relacionarmos com Deus por nós mesmos. Logo, se a salvação não depende de mim, será que eu sou o responsável por mantê-la? Será que Hebreus 6:4-8 ensina a merda de Salvação?

[4] É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, [5] e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro [6] e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. (Hebreus 6:4-6)

Talvez você esteja pensando: “MAS É CLARO QUE VOCÊ PODE PERDER A SALVAÇÃO, HEBREUS 6:4-8 CLARAMENTE AFIRMA ISSO”


Será mesmo? Será que é isto que o texto e seu contexto dizem? Ou será que esse é só mais um caso de se ler o texto isolado de seu contexto e inserir o seu dom “achológico” lá dentro?


A epístola aos Hebreus serviria de encorajamento para aqueles judeus cristãos, que por medo da perseguição, estava voltando ao judaísmo e suas práticas ritualísticas. O autor de Hebreus, então, escreve esta carta para encorajá-los a ficarem firmes, não desistirem de Cristo, pois ele é superior em todos os aspectos possíveis e imagináveis a religião judaica. O autor, inclusive menciona as promessas celestiais que foram feitas aos cristãos.

Então qual o conteúdo principal desta carta? Que Jesus é superior a todos os aspectos presentes no judaísmo. E até aqui, no capítulo 6, já descobrimos que Jesus é superior aos profetas, aos anjos e até mesmo a Moisés. No capítulo 5, o autor mostra que Jesus é superior ao sumo sacerdote e além de ser o que oferece sacrifício ao Senhor, também se tornou o próprio sacrifício a Deus.

No entanto, como vimos no vídeo anterior, os hebreus não entendiam isso, ou ao menos se recusavam entender que Jesus Cristo, além de ser o próprio Deus encarnado, se tornaria no sumo sacerdote eterno que se oferecia como o próprio sacrifício perfeito a fim de expiar o pecado.


Hoje a igreja está do mesmo modo! As pessoas ainda não entendem a doutrina da salvação e tentam colocar rituais como sendo necessários para serem salvos. Seja batismo, sejam obras, seja religiosidade, qualquer coisa é posta como condição para ser salvo hoje em dia. Quando na verdade, a única forma de ser salvo, conforme o autor de Hebreus ensina do começo ao fim de sua carta, é através da fé em Jesus Cristo e seu sacrifício expiatório, nada mais!

Assim, chegamos em Hebreus 6, em que o autor inicia convidando aquela igreja a avançarem para a maturidade. Um convite para que eles cresçam a fim de que possam avançar, finalmente, para um estudo mais sólido, um estudo para adultos. Gente, após quase 30 anos eles ainda estavam confusos em coisas básicas sobre o cristianismo.

Como eles entenderiam perda de salvação se eles nem sequer entenderam a salvação propriamente dita? Ou seja, só lendo até o verso 3, já poderíamos afirmar que Hebreus 6 não irá tratar sobre uma possível perda de salvação, mas somente sobre a salvação!


Esse é o inicio de Hebreus 6, mas antes de lermos o trecho mais complicado que são os versos 4 a 6, vamos ver o seu contexto imediato a fim de fortalecer essa tese de que Hebreus 6 não trata a perda de salvação! O autor inicia o verso 9 dizendo:


[9] Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira. (Hebreus 6:9)


Quem são esses “vós outros”? Simples, alguém diferente dos que ele mencionou nos versos anteriores! Ou seja, segundo os versos 10 em diante, esses “vós outros” são crentes fieis, que tem como incentivo ficarem firmes e trabalhar com empenho pois Deus não irá se esquecer deles oferecendo as promessas celestiais.


Isto é, quanto a vocês, fieis, que não estão voltando para o judaísmo, lembrem-se que as promessas que permeiam a salvação em Cristo são muito superiores, mesmo que tenhamos falado desta maneira. Que maneira? Ai sim, podemos voltar aos versos 4-6 para descobrirmos qual foi esse contraste feito pelo autor. Mas, vamos ser lógicos aqui, se nos versos 9 em diante ele está falando de crentes, qual seria o contraste? Descrentes!


E isso faz total sentido, quando lemos os capítulos 3 e 4 em que o autor fala sobre os perigos da incredulidade, que seria? A apostasia! O abandono da fé! Então aqui, nos versos 4 a 6 temos o desenvolvimento mais detalhado do resultado da incredulidade, que inicia com uma frase negativa:


[4] É impossível, pois, [...]


A conjunção “pois”, conecta o que foi dito nos versos 1-3 com o que será dito nos versos 4 a 6. Essa conjunção dá ideia de que virá uma conclusão a seguir. Seria um “porque”, “visto que”, “então”, veja como fica o conjunto todo:


“JÁ QUE ... vocês são crianças preguiçosas que não se empenham em entender coisas básicas e elementares da doutrina de Cristo, vamos seguir em frente, com alimento sólido, com assuntos de adultos” PORQUE É IMPOSSIVEL... [TÃNÃNÃ]

O que é impossível? Vamos ver:


[4] É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, [5] e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro [6] e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. (Hebreus 6:4-5)


Precisamos ter em mente uma única coisa, qual a maior admoestação do autor de Hebreus? Perseverança? Sim, mas como é única forma de perseverar segundo o autor de Hebreus? Somente pela fé!


Assim sendo, de novo, estes versos 4-6 não tratam sobre os destinatários dessa carta, que eram crentes prestes a abandonar a fé, mas aos que são incrédulos e que já tinham abandonado a fé. E isso é interessante, pois ao lermos os versos temos a impressão de que o autor afirma que eles são cristãos, o que não é verdade, mas a frase “é impossível” nos versos 4 e 6 separam uma quase perfeita descrição de um cristão verdadeiro:


- Aqueles que foram iluminados;

- Aqueles que provaram o dom celestial;

- Aqueles que se tornaram participantes do Espírito Santo;

- Aqueles que provaram a boa palavra de Deus;

- Aqueles que provaram os poderes do mundo vindouro;

- Aqueles que caíram.


De acordo com as 5 primeiras condições, poderíamos dizer que o autor está tratando de um crente verdadeiro, pois como chamamos alguém que foi iluminado e provou o dom celestial, se tornou participante do Espírito Santo, provando a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro? Chamaríamos de crente!

Mas, então, ele acrescenta uma nova condição: “e caiu”. Quem é o que cai neste verso? O mesmo que foi iluminado, que provou do dom celestial, do Espírito Santo e a boa palavra de Deus! Ou seja, o apostata!


Cair aqui é [παραπεσόντας] e significa “apostatar”, “abandonar a fé. Ou seja, temos o retrato de um possível crente que abandonou a fé. NÃO temos o relato de um possível crente que cometeu pecado tal a ponto de não mais ser possível restaurá-lo com Deus! Isso é importante!

Portanto, vale ressaltar que o autor fala sobre apostatar e NÃO sobre cair em pecado aqui!

Judas apostatou de Jesus e nunca mais retornou a ele;

Pedro caiu em pecado, mas logo depois que viu Jesus ressurreto retornou a ele;

Apostasia e desvio são coisas diferentes e em Hebreus 6 o autor está se referindo a apostasia, ou seja, alguém que depois de ter experimentado tudo do evangelho, deliberadamente, por vontade própria abandona a fé. Essa pessoa volta para o seu ponto anterior. Esse era o caso de alguns dos hebreus aqui, experimentaram, vivenciaram e sentiram o evangelho, mas decidiram voltar atrás, decidiram abandonar a fé cristã e voltar ao judaísmo. Nesse caso, eles eram crentes ou pareciam ser crentes? Nitidamente pareciam crentes, mas não eram!


O que o autor está dizendo então? Que depois de tudo que essa pessoa experimentou...

...a iluminação...

...a boa palavra pregada...

...o Espírito Santo...

...as promessas...

...depois dessa pessoa ter tido uma experiência tão incrível...

...ainda decidiu abandonar a fé...

...decidiu voltar para sua situação anterior...

...portanto, nesse caso...

...é impossível restaurá-la para arrependimento de novo...


Como assim de novo? O que é esse de novo?


Primeiro, o que é ser trazido ao arrependimento? Seria reconhecer a natureza caída do homem e a necessidade de um salvador, que ao ser crucificado no lugar do homem, expiaria o pecado do que crê de uma vez por todas!

O apostata de dos versos 4-6 entendeu isso, ele até chegou ao ponto de experimentar parte disso, mas no fundo, ele não creu de verdade! Logo, ele por vontade própria, decidiu não crer em Cristo! No caso dos hebreus, voltaram ao judaísmo e suas práticas ritualísticas.


Abandonar a fé em Cristo é deliberadamente rejeitar seu sacrifício expiatório! Portanto, é impossível trazer essa pessoa de volta, não porque o sacrifico de Cristo não seja suficiente, mas porque essa pessoa já decidiu não crer em Cristo.


Apostasia é realmente algo pesado, pois aquele que abandona a fé está declarando que Jesus deve ser eliminado, essas pessoas que estão se apostatando estão voltando a seita judaica que queriam que Jesus fosse eliminado desta terra, estavam voltando para a seita judaica que o levantaram numa cruz, para morrer como um criminoso. Então, o apostata, é aquele que havia experimentado o evangelho de Cristo, mas que decide não o seguir, voltando para o ponto anterior e novamente, metaforicamente, crucifica Jesus novamente!


O apostata de Hebreus 6 trata Jesus com escárnio e rejeita deliberadamente a salvação oferecida pelo messias! Portanto, podemos concluir que essa pessoa NUNCA foi salva de verdade! Essa pessoa nunca creu no evangelho de verdade! Essa pessoa nunca quis um relacionamento com Cristo de verdade! Talvez ela queria os benefícios que Jesus oferecia, mas nunca quis o relacionamento verdadeiro de Cristo!


Uma pessoa que entende o evangelho de verdade, entende que o relacionamento que Jesus oferece é tão perfeito que não há nada nesse mundo que possa separar o homem do amor de Deus que está em Jesus Cristo! Nosso Senhor se sacrificou de uma vez por todas e este sacrifício é perfeito e eterno. Logo, quando eu entendi o evangelho eu fui colocado diante de uma escolha, no qual só há duas únicas opções: CRER ou NÃO CRER! Eu sou impelido pela fé, em crer, aceitando o sacrifício substitutivo de Cristo como suficiente para me salvar eternamente. Veja o que o autor escreve no capítulo 10:


[11] Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca jamais podem remover pecados; [12] Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, [13] aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés. [14] Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados. (Hebreus 10:11-14)


Sabe o que é melhor neste trecho? É que ele não acaba aqui, veja:


[15] E disto nos dá testemunho também o Espírito Santo; porquanto, após ter dito: [16] Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei no seu coração as minhas leis e sobre a sua mente as inscreverei, [17] acrescenta: Também de nenhum modo me lembrarei dos seus pecados e das suas iniquidades, para sempre. [18] Ora, onde há remissão destes, já não há oferta pelo pecado. (Hebreus 10:15-18)